eis que a paz tornou-se
a mais teimosa das forças da natureza.
paz,
minha filha adolescente,
eterna adolescente querida,
tão linda,
te lembras de quando te pegava no colo?
te trocava as roupas?
hoje já dizes o que vestes
com tanta certeza quanto uma mulher já feita!
hoje te aqueces
onde te aqueces
e meu colo?
meu colo está lamuriando
sua falta,
minha amada paz,
minha menina
dos olhos,
do ventre que não tenho,
do vento que não sopro,
da terra que não piso,
do fogo que não queimo
minhas mãos
que não te acanlentam
a pele que não
vejo
perto.
pari a paz
há anos atrás
e eis que tornou-se
com uma personalidade minha.
quase um orgulho,
quase um carma.
difícil mesmo é lidar com o silêncio. a música conforta, que ao menos tem melodia. a televisão passa a mão na cabeça da solidão desacompanhada ou não. a fotografia não. a fotografia não tem som, não tem gemido, não tem palavra berrada d’outro canto do mundo ou dita de canto de ouvido. fotografia não tem embalo de balada brega e é nessa que muito fotógrafo cai do cavalo quando resolve trotar. fotografia ou as artes plásticas em geral, não importa; imagem é morta, que a eternidade é mortal. quem tenta viver mais do que é acaba como vela que só queimou um pouco demais e que acabou por virar cera cedo demais. se tudo é finito,
(até o grito em algum lugar não se escuta,
até a luz em algum lugar não alcança,
até a sombra em algum lugar não lança temor algum),
deixa a imagem ser também que só quem tá vivo cansa.
dfícil mesmo é chamar atenção só com os olhos que comida feia se cheira bem serve à mesa. difícil mesmo é fazer o ser sair de si por si só, mas mais difícil é fazer o ser ser ouvido sem frase alguma, só com os olhos, e se já é difícil fazer alguém te entender só com o olhar imagina só fazer-se entender só com o olhar quem você nunca sequer olhou na vida; e isto é uma boa imagem, a que se fez entender (talvez), a que se deixou sentir (talvez, também, que sentir todos sentem de alguma forma e isto não é julgo nenhum), a que mudou a sua vida (certeza). todos lembram de sua primeira paixão, poucos lembram de sua terceira ou quarta que estas já estavam em terreno conhecido. e se você lembra, deve ter algum motivo. e se tem algum motivo, mudou a sua vida.
difícil mesmo é se fazer entender só com o olhar. se te encaro, te entendo ou entendo meio, e se me encaras me entendes pelo menos alguma parcela. se te saco, se te percebo, se me enveneno com tua íris cor de víbora, é porque me olhas fundo, e não porque me compreendes como ninguém. é teu toque invisível, não tua língua no meu mamilo. se te quero, te quero porque te quero e porque me fizestes te querer com seja lá que magia tens; pois sabes usar teu feitiço, ou se não o sabes usar, ao menos o tens.
isto é uma fotografia.
não aquelas outras trezentas e tantas que moldura nunca fez poça d’água virar oceano. no mínimo rio, rio de chorar de apelo em braço quente que me pede a cada cinco minutos calma enquanto digo repetidamente nome que já nem mesmo eu imaginava estar em circulação. que nem mesmo eu sabia que ainda guardava ou se ainda exisitia.
isto é uma fotografia.
não qualquer outra coisa que me diga sobre qualquer outra coisa que me dizem as boas, as más, as neutras, as efusivas, as tantas outras línguas. que imagem não é tudo, é mais. que tudo é nada quando se joga na sorte, quando se aposta. tanto é verdade que tenho apostado em amores minha vida inteira e veja bem no que deu… em nada. quem fez a imagem disso, contanto, fui eu. o resultado? eu. a consequência? eu. o escárnio? eu. o que se arrependeu?
isto é uma fotografia:
eu. ainda que tu quem quer que sejas, eu. ainda que rosto mais bem feito quem o fez aparecer fui eu. ainda que… não importa. eu. ou tu, se estiveres tu com a câmera na mão. mas aí, se fores tu o que carrega a câmera, faça-me o favor de ser tu por inteiro e não me venha reclamar de peso do equipamente que criança qualquer sabe que um quilo de pedra pesa mais que um quilo de pena, e minh’alma é um rochedo.
isto é uma fotografia.
um silêncio. um silêncio imenso. um sufoco que me faltou ar. uma falta de ar que me deu uma saudade. uma saudade que não coube na linha. uma linha que não me traçou na reta do desejo. um silêncio ensurdecedor.